VAI LÁ…

Dar um jeito de assistir ao Trash Humpers, último longa-metragem dirigido por Harmony Korine, lançado em 2009. Repulsivo e ultrajante,  mas de uma sensibilidade que acaba por se tornar estranhamente comovente.

Harmony Korine dispensa apresentações. Com um currículo que inclui Gummo (1997), um dos filmes mais importantes dos anos 90, e o roteiro de Kids, de Larry Clark, o diretor, roteirista, escritor e fotógrafo conquistou o gosto não só de cineastas importantes (Lars Von Trier, Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant, para citar alguns), como uma legião de fãs por todo o mundo – isso apesar de suas temáticas e estilo pouco convencionais.

Taxado de provocador e radical, Korine joga de acordo com suas próprias regras. Párias sociais, imagens de revirar o estômago e desordens mentais são temas comuns às suas narrativas, normalmente não-lineares, experimentais e metafóricas.

Trash Humpers é um filme exemplar do estilo do cineasta: uma realização audaciosa e autêntica, na contramão da linguagem do cinema convencional. “Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru”, diz um dos textos oficiais do longa.

Os personagens de Trash Humpers não apenas protagonizam atos grotescos, como exibem uma total satisfação em fazê-lo, numa inusitada celebração à destruição. Entre tantas bizarrices (o nome entrega uma: hump = fazer sexo com alguém ou alguma coisa, trash: lixo), eles dançam, cantam e repetem frases sem sentido, compondo uma improvável poesia saída do caos. Paradoxalmente, há quase um otimismo, uma doçura naqueles seres humanos vivendo no seu próprio mundo.

Trash Humpers foi filmado em cerca de duas semanas, com orçamento beirando o zero e partindo apenas de algumas anotações e testes com fotografias. A rotina de gravação não envolveu mais do que o atrevimento da equipe: o grupo de falsos velhos – incluindo um incógnito Korine – apenas saiu pelas ruas, dormindo embaixo de pontes e fazendo todas as demências nas quais podiam pensar, enquanto documentavam uns aos outros. O longa foi filmado em VHS, com câmera na mão e sem roteiro, combinando com a premissa peculiar e a espontaneidade das representações. A ideia era que o filme parecesse uma velha e maluca fita de vídeo-cassete que cai na mão de alguém por motivos inquestionáveis e surreais, como que encontrada por acaso enterrada em algum buraco, ou em um sótão abarrotado – com certeza, uma intenção alcançada com sucesso.

Pode-se dizer que o contraponto de Trash Humpers – o poético X o grotesco – se estende a toda a carreira de Harmony Korine. Ou se ama, ou se odeia. De uma forma ou de outra, seus filmes sempre valem a pena e nunca passam despercebidos.

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